Reino das Astúrias.html

 
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Bandeira do reino das Astúrias.
Série
História da Península Ibérica
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Período das Taifas
A Reconquista e o Reino das Astúrias
Reino de Leão
Portucale   Castela

O Reino das Astúrias foi a primeira região da Península Ibérica que se libertou do domínio dos Mouros aquando da invasão por estes da Península Ibérica. Protegidos por uma imponente cadeia montanhosa, os cristãos que escaparam à conversão islâmica imposta pela invasão dos Mouros refugiaram-se naquele pequeno território do norte da península, a partir do qual dariam início ao processo de Reconquista Cristã, inicialmente mediante pequenas escaramuças, até aos confrontos directos com os estandartes dos vários reinos cristãos que se foram formando.

Foi, portanto, a primeira entidade política cristã estabelecida na península depois da capitulação do Reino Visigodo de Toledo, na sequência da morte de Rodrigo, último rei visigodo, na batalha de Guadalete. A designação de Reino das Astúrias foi inicialmente ostentada por Pelágio das Astúrias. A partir deste pequeno território, surgiram os reinos de Castela, Leão (de onde derivou mais tarde o Condado Portucalense e, subsequentemente, Portugal), Navarra, e Aragão. O reino durou de 718 a 925, altura em que Fruela II ascendeu ao trono do Reino de Leão.

Índice

editar Indígenas da região

Ver artigos principais: Astures, Guerras Cantábricas.
Ali viviam dois povos muito poderosos, Cantabros e Astures, que não estavam submetidos ao nosso Império

O Reino Asturiano teve como região os territórios ocidentais e centrais da Cordilheira Cantábrica, particularmente os Picos de Europa e a área central das Astúrias, zonas onde tiveram lugar os principais acontecimentos político-militares durante as primeiras décadas de existência do reino. Segundo as descrições de Estrabão, Cassius Dio e outros geógrafos greco-romanos, estas zonas estavam habitadas já antes da era cristã por diferentes povos, entre os quais se podem citar os seguintes: Vadinienses, que habitavam os Picos de Europa e cuja área de assentamento se foi deslocando lentamente em direcção ao Sul durante os primeiros séculos da nossa era, tal como o testemunham as numerosas estelas; os Orgenomescos, fixados na costa oriental asturiana; os Selinos que, como o próprio nome indica, se distribuíam por todo o vale do Sella (Salia); os Lugones, cujo território se estendia entre os rios Sella e Nalón e cuja capital se situava em Lucus Asturum (Lugo de Llanera); os Astures propriamente ditos, que habitavam a zona interior das Astúrias, situada entre os actuais concelhos de Piloña e Cangas del Narcea; e os Pésicos, que moravam na zona costeira de Astúrias Ocidental, entre a foz do Navia e a actual cidade de Gijón.

Imagem do lado do Valle (Somiedo). Aqui pode-se observar as conhecidas cabanas de teito, não muito diferentes das residências dos antigos Astures.

As informações que nos dão os geógrafos clássicos acerca da filiação étnica destes povos são confusas: Ptolomeu assinala que os Astures habitavam a zona central da actual Astúrias, a que se estende entre os rios Navia e Sella, situando-se a oriente deste rio a fronteira com o território dos Cantabros. No entanto, já no século IV, a Cosmographia de Júlio Honório posiciona a nascente do Ebro em território dos Astures (sub asturibus). Em qualquer caso, e deixando de lado os detalhes relativos às fronteiras entre as diferentes etnias cantábricas, o próprio Estrabão assinala em Geographia que todos os povos do Norte da Hispania, desde os Galaicos aos Vascones, tinham cultura e estilos de vida similares.

Outros testemunhos manifestam que nem os Lugones nem os Pésicos se identificavam originalmente com os Astures; assim, no Paroquial Suévico, verifica-se a distinção entre Astures e Pésicos, como se fossem tribos diferenciadas, e numa lápide encontrada no concelho de Piloña - a piedra de los Ungones - assinala-se a fronteira entre os Lugones e os Astures. Parece, portanto, que não existia nenhuma identidade supratribal de onde divergissem as tribos do futuro território asturiano.

Contudo, este cenário começou a modificar-se com a queda do Império Romano e durante as migrações dos povos germânicos: a luta, primeiro contra os Romanos e mais tarde contra os Vândalos Asdingos e Visigodos, foi forjando uma identidade comum entre os povos da futura Astúrias. Neste contexto, diversas escavações arqueológicas encontraram restos de fortificações ao redor do castro de Carisa (concelho de Lena). Os peritos consideram que a dita linha defensiva, disposta estrategicamente na bacia do rio Caudal — via de entrada natural nas Astúrias desde a Meseta —, prova a existência de uma resistência organizada, no seio da qual deverão ter cooperado todos os habitantes das Astúrias central. Neste sentido, os ditos especialistas descobriram em Carisa dois níveis arqueológicos distintos, um dos quais corresponde às Guerras Cantábricas e um segundo período 675-725 em que se deram a expedição do rei visigodo Wamba contra os Astures e a conquista das Astúrias por Musa ibn-Nusair.

A identidade asturiana, que progressivamente se ia forjando, cristalizaria de maneira definitiva após a coroação de Pelágio, a vitória em Covadonga e a subsequente consolidação do Reino das Astúrias. Neste sentido, a crónica Albeldense, ao narrar patrioticamente os sucessos de Covadonga, afirma que, após essa batalha, «nasceu por divina providência o Reino das Astúrias»[1].

editar Evolução histórica

editar Ocupação islâmica e revolta astúrica

Diz-nos Isa bin Ahmad Al-Razi que no tempo de Anbasa ben Suhaim Al-Qalbi se levantou em terras da Galiza um asno selvagem chamado Pelágio
Crónica de Al Maqqari

No decorrer da Invasão muçulmana da Península Ibérica, as principais cidades e centros administrativos da península foram caindo nas mãos das tropas muçulmanas. O domínio das regiões centrais e meridionais, como os vales do Guadalquivir ou do Ebro apresentou poucos problemas aos recém chegados, que se fizeram valer da ajuda das estruturas administrativas visigodas existentes, de origem romana. No entanto, nas montanhas do Norte, os centros urbanos eram praticamente inexistentes e a submissão da nação fazer-se-ia de forma progressiva, praticamente de vale a vale. Por vezes, os muçulmanos faziam reféns para se assegurar da pacificação do terreno recém conquistado.

Após a primeira incursão de Tárique, que no ano 711 chegou até Toledo, o vice-rei do Iémen de Ifriqiya, Musa ibn-Nusair, cruzou no ano seguinte o Estreito de Gibraltar e levou a cabo uma maciça operação de conquista que o levaria a capturar, entre outras, as cidades de Mérida, Toledo, Saragoça e Lérida. Na última fase da sua campanha militar chegou ao noroeste da península, onde conseguiu apoderar-se das povoações de Lugo e Gijón. Nesta última cidade instalou um pequeno destacamento berbere, encabeçado por um governador, Munuza, cuja missão consistiria em consolidar o domínio muçulmano sobre as Astúrias. Como garantia da submissão da região, alguns nobres, entre eles Pelágio, foram levados como reféns para Córdoba.

Porém, segundo nos relatam tanto a Crónica Rotense como a de Al-Maqqari, Pelágio conseguiu evadir-se da cidade durante o governo do vali Al Hurr (717-718) e, no regresso às Astúrias, instigou uma revolta contra as autoridades muçulmanas de Gijón. O caudilho dos Astures — cuja origem é discutida pelos historiadores[2] — teria então residência em Bres (concelho de Piloña) e para lá foram enviadas as tropas de Munuza, a mando do general Al Qama. Tão cedo foi recebida a notícia da chegada dos muçulmanos, Pelágio e os seus companheiros cruzaram apressadamente o rio Piloña e dirigiram-se ao monte Auseva, onde se refugiaram numa das suas covas, Covadonga, e aí conseguiram emboscar o destacamento sarraceno, que foi aniquilado. A vitória — relativamente pequena, já que nela apenas intervieram poucas centenas de soldados berberes — outorgou um grande prestígio a Pelágio e provocou a insurreição maciça dos Astures. Munuza, ao deparar-se vulnerável com a região progressivamente hostil, decidiu abandonar Gijón e dirigir-se à Meseta através do Caminho da Mesa. Contudo, seria interceptado e morto pelos Astures em Olalíes (actual concelho de Grado).

Vista do reservatório do monte Curiechos, em La Carisa.

Recentemente, no Pico Homón — próximo do Puerto de la Mesa — e em Carisa (situada uns 15 quilómetros mais a Este, no concelho de Lena, dominando os vales do Huerna e Pajares), foram levadas a cabo escavações por uma equipa de arqueólogos, onde se encontraram fortificações cuja datação, segundo os dados proporcionados pelo Carbono 14, se situa nos finais do século VII e princípios do século VIII: Aqui foram encontradas atalaias e fossos de quase dois metros, em cuja construção e vigilância tiveram que participar milhares de soldados, o que requeria um grande nível de organização e liderança firme, provavelmente do próprio Pelágio[3]. Por esse motivo, os especialistas consideram muito provável que a construção da dita linha defensiva tenha tido como objectivo impedir a entrada dos muçulmanos nas Astúrias através dos portos da Mesa e Pajares[4].

Decorrida a vitória de D. Pelágio na batalha de Covadonga (722) sobre os muçulmanos, estabelece-se uma pequena entidade territorial nas montanhas asturianas que dará lugar mais tarde ao Reino das Astúrias. A liderança de Pelágio não era comparável à dos reis visigodos: com efeito, os primeiros reis das Astúrias se autotitulavam alternativamente entre princeps (príncipes) e rex (reis) e não seria senão na época de Afonso II que este título se consolidaria definitivamente. De salientar que o título de princeps tinha uma grande tradição nos povos indígenas do norte da península e o seu uso constata-se na epigrafia cantábrica, na que aparecem expressões como princeps albionum[5] (numa inscrição no concelho de Coaña) e princeps cantabrorum[6] (sobre uma lápide vadiniense no município de Cistierna, em Leão). Na realidade, o reino das Astúrias surgiu como uma caudilhagem sobre os povos de La Cornisa cantábrica que haviam resistido tanto aos Romanos como aos Visigodos e que não estavam dispostos a submeter-se ao governo do Império Omíada. A influência dos imigrantes provenientes do Sul, em fuga do Al-Andalus, irá impregnando o reino asturiano de goticismo. Note-se, contudo, que ainda no princípio do século IX, no testamento de Afonso II, se renegavam os visigodos, culpando-os da perda da Hispânia. As crónicas nas que se baseia o conhecimento desta época, escritas todas no tempo de Afonso III quando a influência ideológica goticista era já importante, são a Sebastianense, Albeldense e Rotense.

A famosa Ponte Romana da localidade de Cangas de Onís, primeira capital do Reino das Astúrias.

Durante as primeiras décadas, o controlo asturiano sobre as diferentes regiões do reino era ainda bastante lasso, e por isso devia ser fortalecido continuamente através de alianças matrimoniais com outras famílias poderosas do norte da península: é desta forma que Ermesinda, a filha de Pelágio, contraiu matrimónio com Afonso I, filho de Pedro, Duque da Cantábria. E, por sua vez, os filhos de Afonso, Fruela e Adosinda fizeram respectivamente o mesmo com Munia, uma basca originária de Álava e Silo, um chefe local pésico da área de Flavionavia (Pravia).

Após a morte de Pelágio, no ano 737, o seu filho Fávila é eleito monarca. Fávila é morto, segundo as crónicas, por um urso, durante provas de valor normalmente exigidas à nobreza da época.

editar Expansão inicial

Afonso I sucedeu a Fávila, herdando o trono das Astúrias graças ao matrimónio contraído com a filha de Pelágio, Ermesinda. Afonso terá nascido provavelmente em Tritium Magallum (Tricio, La Rioja), sede do seu progenitor, Pedro, duque da Cantábria: a crónica Albeldense narra que Afonso partiu de terras riojanas para as Astúrias para contraiar matrimónio com Ermesinda. A morte de Fávila possibilitou-lhe o acesso ao trono, assim como a chegada ao poder de uma das famílias que se tornaria das mais poderosas no Reino das Astúrias: a Casa de Cantábria. Com o passar do tempo, e com a progressiva despovoação da Meseta e do Vale Médio do Ebro, onde se situavam as principais praças fortes do Ducado da Cantábria, como Amaya, Tricio, ou a Cidade da Cantábria[7], os descendentes do Duque Pedro foram-se progressivamente transladando para a região cantábrica e aí se misturaram com os destinos do Reino das Astúrias.

Terá sido Afonso quem iniciou a expansão territorial do pequeno reino cristão desde o seu primeiro solar nos Picos de Europa, avançando em direcção a Oeste, para a Galiza, e para Sul, com sistemáticas incursões no vale do Douro, tomando cidades e povoações e realojando os seus habitantes nas zonas mais seguras, a Norte. Esta medida provocou o despovoamento estratégico da Meseta, criando o Deserto do Douro como protecção contra futuros ataques muçulmanos.

Este despovoamento, defendido por Claudio Sánchez-Albornoz, é actualmente colocado em dúvida, pelo menos no que se refere à sua magnitude. As principais ideias para refutá-lo são, por um lado, a conservação da toponímia menor em múltiplas comarcas, bem como o facto de que hoje em dia ainda persistam grande diferenças, tanto pelo ponto de vista da antropologia biológica como da cultural, entre os habitantes da zona cantábrica e dos da Meseta Central. O que parece efectivamente inquestionável é o facto de na primeira metade do século VIII ter-se assistido a um processo de ruralização do vale do Douro, que traria consigo o abandono da vida urbana e a reorganização das povoações em pequenas comunidades de pastores. Das possíveis causas deste processo podem citar-se as seguintes: a quebra definitiva do sistema de produção esclavagista existentes desde os tempos do Baixo Império, a propagação continuada de grandes epidemias nesta zona e, por último, o abandono do Al-Andalus por parte das guarnições berberes após a revolta dos anos 740 e 741. Tudo isto possibilitou o surgimento de um espaço pouco povoado e mal organizado que isolou o reino asturiano das investidas muçulmanas e lhe permitiu desenvolver-se progressivamente.

De resto, as campanhas dos reis Afonso I e Fruela no vale do Douro não deveriam ser muito diferentes das razias que os Astures realizavam nessa zona na época pré-romana: inicialmente a sua expansão desenrola-se fundamentalmente através do território cantábrico (desde a Galiza até Biscaia) e será necessário esperar até aos reinados de Ordonho I e Afonso III para que o Reino das Astúrias efective a possessão dos territórios situados a Sul da Cordilheira.

Fruela I, filho de Afonso I, consolida e amplia os domínios do seu pai que morrera assassinado pelos membros da sua nobreza vinculados à Casa da Cantábria.

editar Transformações sociais e políticas

As fontes escritas relatam muito pouco sobre os reinados de Aurélio, Silo e Bermudo I. De uma forma geral, este período de duração de vinte e três anos (768-791) ficou considerado como uma larga etapa de obscuridade e reorganização do Reino. Esta perspectiva, sustentada por alguns historiadores, que inclusive denominam esta fase como a dos Reis Folgados, deve-se ao facto de que, aparentemente, nesse período, não tenham ocorrido acções bélicas significativas contra o Al-Andalus. Não obstante, essas mesmas fontes escritas permitem afirmar que durante esses anos se produziram relevantes e decisivas transformações no que diz respeito às questões internas do Reino. Todas elas prepararam e serviram de base, em todos os aspectos, para o seu posterior desenvolvimento e expansão.

Em primeiro lugar, terá sido nesses anos que se verifica a primeira rebelião interna dos Astures, protagonizada pelo próprio Mauregato, que expulsou do trono Afonso II. Consequentemente, iniciou-se nas Astúrias uma série de rebeliões protagonizadas por grupos aristocráticos em ascensão e por grandes proprietários que, observando o crescente desenvolvimento económico da zona, tratavam de subtrair o poder da família reinante de Pelágio. As importantes rebeliões de Nepociano, Aldroito e Piniolo, durante o posterior reinado de Ramiro I, formam parte deste processo de transformação económico, social, político e cultural do Reino das Astúrias, ocorrido entre os séculos VIII e IX.

Por outro lado, fracassam as sublevações periféricas de Galaicos e Vascones, abortadas pelos reis asturianos. Estas revoltas aproveitaram-se das rebeliões internas da zona central e oriental da região; e, em certas ocasiões, deram o seu contributo a uns ou outros contendentes da aristocracia asturiana: refúgio a Afonso II em terras alavesas, durante a sua fuga; apoio à sublevação de Nepociano em algumas zonas asturianas, ou o alinhamento dos Galaicos na causa de Ramiro I.

Por último, outros dados referem importantes transformações internas do reino asturiano nesse período. São as sublevações dos libertos (serbi, servilis orico e libertini, segundo as Crónicas) ocorridas durante o reinado de Aurélio. As relações de propriedade entre dono e escravo foram-se rompendo pouco a pouco. Este facto, aliado ao progressivo papel do indivíduo e da família restringida em detrimento do papel que a família desempenhava até então, torna-se mais um indício de que uma nova sociedade se formava nas Astúrias no final do século VIII e inícios do século IX.

A Fruela I sucede Aurélio, descendente de Pedro, duque da Cantábria, que instalará a corte em terras do que é actualmente o concelho de San Martín del Rey Aurelio, antigamente pertencente a Langreo, entre os anos 768 e 774. Fruela I morre e sucede-lhe Silo, que translada a corte para Pravia. Silo estava casado com Adosinda, irmã de Afonso I (e, portanto, da linhagem de Pelágio).

O Reino das Astúrias na Europa, no ano 814.

Ao morrer o rei Silo, é eleito Rei o jovem Afonso II (que, mais adiante, em 791, voltaria a recuperar o trono). Mas Mauregato, filho bastardo do rei Afonso I, organiza uma forte oposição e consegue forçar a retirada do novo rei para terras alavesas (a sua mãe, Munia, era basca), usurpando o trono asturiano. Este rei, apesar da má fama que a História lhe adjudica, manteve boas relações com o Beato de Liébana, talvez a figural cultural mais importante do reino, e apoiou-o na sua luta contra o adopcionismo. Diz-nos uma lenda que este rei era filho bastardo de Afonso I e de uma moura, e é-lhe atribuído o tributo das cem donzelas. Sucede-lhe Bermudo I, filho de Aurélio. Tornou-se conhecido como o Diácono, embora provavelmente apenas tenho feito votos menores. Na sequência de uma derrota militar, Bermudo abdica do trono e acaba os seus dias num mosteiro.

editar Progresso e expansão

Após a abdicação de Bermudo I, Afonso II, o Casto regressou às Astúrias para se proclamar Rei, terminando o período de relativa paz com os muçulmanos. Durante o seu reinado, realiza expedições de castigo no Sul, chegando mesmo até Lisboa em 798, e em 825 vence também os muçulmanos no rio Nalón. Fixa a capital do Reino em Oviedo e procede ao repovoamento da Galiza e zonas setentrionais de Castela e Leão. Foi um reinado exposto a contínuos ataques dos muçulmanos. Ainda assim, consegue expandir o reino e surge o pré-românico asturiano, dando lugar a obras-primas da arquitectura medieval europeia. Afonso II instaura o culto jacobeu e torna-se a primeira figura do Caminho de Santiago, que vincula as Astúrias com a Europa (especialmente com o reino de Carlos Magno), com quem partilhava um inimigo comum no Sul, de cultura oriental. Afonso II era filho de mãe alavesa, pelo que já se previa a aproximação do reino asturiano aos vizinhos Bascos. Na batalha de Lutos (Llodos em asturiano, ciénegas em castelhano), é infligida uma dura derrota aos árabes e berberes que queria acabar com a crescente ameaça que se tornava o já Reino das Astúrias. Em 808, manda forjar a Cruz dos Anjos. Este rei encarrega o arquitecto Tioda da construção de vários edifícios de carácter régio e religioso para embelezamento de Oviedo, dos quais poucos sobreviveram até aos dias de hoje.

Ermita de Santa Maria do Naranco, obra-prima da arte ramirense.

Os reis seguintes, Ramiro I (filho de Bermudo que se proclama Rei no seguimento de uma guerra civil) e Ordonho, vivem num período de guerra contínua contra os muçulmanos. No tempo de Ramiro I, desenvolve-se a arte ramirense, o apogeu pré-românico asturiano. Este rei livra a batalha de Clavijo, na qual, segundo a lenda, o apóstolo Santiago, a monte num cavalo branco, ajuda o exército asturiano contra as tropas islâmicas. No ano 844, surge na costa de Gijón uma frota de Normandos; não se sabe com certeza se aí desembarcaram, mas não se detiveram, já que prosseguiram em direcção ao que as Crónicas referem de Faro de Brigantio (Corunha), de onde foram expulsos, prosseguindo a incursão a Espanha (as crónicas asturianas chamavam Espanha ao Al-Andalus).

Ordonho procede ao repovoamento de Astorga, Leão, Tui e Amaya. Estabelece relações próximas com o reino de Navarra, possivelmente ajudando na libertação do rei García Íñiguez, sequestrado pelos Normandos. Ainda no decorrer da anexação do vale do Ebro, estabelece alianças com os Banu Qasi de Saragoça, com quem também combateu em oscilações da aliança. Ordonho também trata de ajudar, sem sucesso, aos moçárabes toledanos em rebelião contra o emir de Córdoba. Na sequência da sua morte, sucedeu-lhe o filho, Afonso III.

editar Apogeu e final

A amarelo, a extensão aproximada dos reinos de Astúrias e Navarra em anos da morte de Afonso III.

Afonso III atinge o expoente máximo do poderio do Reino das Astúrias. Estabelece relações muito próximas com o Reino de Navarra, luta e alia-se repetidas vezes com os Banu Qasi de Saragoça e luta ao lado dos moçárabes de Toledo contra o poder emiral.

Imagem do verso da Cruz da Vitória.

No ano de 908, um século depois de Afonso II fazê-lo com a Cruz dos Anjos, manda forjar a Cruz da Vitória, símbolo de Astúrias desde então. Afonso casa-se com Jimena, nobre navarra, possivelmente filha de Garcia Iñiguez. Com o apoio dos nobres galegos, como Hermenegildo Guterres, conquista o norte do actual Portugal. Também se adentra pelo Douro, conquistando Zamora e Burgos. No momento do apogeu, o reino asturiano ocupava todo o noroeste peninsular, desde o Porto até Álava.

Garcia I, filho de Afonso III, o Grande, depois de lutar contra o seu pai e irmãos, Ordonho II e Fruela II, translada a capital do reino para Leão, criando um novo reino que se fundiria com o asturiano, o Reino de Leão.

editar A articulação territorial do Reino das Astúrias

editar A zona nuclear do reino: as Astúrias e Liébana

As Astúrias foi a região onde se forjou o primeiro estado cristão da Reconquista. É neste território original que se situam as quatros capitais que o Reino foi tendo sucessivamente (Cangas de Onís, Pravia, San Martín del Rey Aurelio e Oviedo) assim como as principais demonstrações da arte pré-românica asturiana.

A Crónica Rotense, ao mencionar as campanhas de Afonso I, diz-nos que "neste tempo se povoaram as Astúrias, Primorias, Liébana, Trasmiera, Sopuerta, Carranza, Bardulia, que agora se chamam Castela, e a parte marítima da Galiza"[8]. Oferece-nos ainda a descrição das diferentes entidades regionais e comarcais existentes no território cantábrico.

Em princípio, e como se pode deduzir pelo testamento de Afonso II[9] (ano 842), o reino original de Pelágio estendia-se entre os rios Eo e Miera, cujos territórios mais tarde se conheceram pelos nomes de Astúrias de Oviedo e Astúrias de Santillana. No entanto, os sucessores de Pelágio foram progressivamente estendendo os seus domínios, anexando territórios como Trasmiera ou El Bierzo que, não obstante, conservaram a sua autonomia sob a forma de ducados ou condados registos por comtes vinculados à aristocracia local, como Rodrigo de Castela ou Gatón de Bierzo.

A este do rio Miera situavam-se as comarcas de Trasmiera, Sopuerta e Carranza. Estes dois últimos territórios foram anexados a Biscaia (1285 e posteriormente ao País Basco (1979), embora ainda hoje conservem boa parte da sua cultura montanhesa original [10]: O dialecto tradicional de Encartaciones apresenta rasgos asturoleoneses[11] e a sua mitologia inclui referências a criaturas como Ojáncano ou o Trenti que tão familiares são no folclore de La Montaña da Cantábria.

editar O Deserto do Douro, a cidade de Leão e o antigo Ducado Asturiense

Ver artigo principal: Legio VII Gemina

Após a conquista islâmica de Hispânia, o território da sub-Meseta norte viveu um processo de despovoamento, acentuado entretanto pela rebelião berbere dos anos 740 e 741 e pela seca que afectou essa área durante as décadas centrais do século VIII, trazendo como resultado a desertificação da bacia do Douro, agora transformado em terra de ninguém habitada por pequenas comunidades de pastores e agricultores organizados ao nível de aldeias, ao redor de um senhor ou mosteiro local.

Na historiografia espanhola discute-se em torno da natureza e intensidade do despovoamento do Vale do Douro. Alguns autores, como Sánchez Albornoz, afirmam que esta terá sido total e, mais do que isso, foi potenciada pelos próprios reis asturianos para desta forma isolar-se estrategicamente do emirado de Córdoba e dificultar a entrada das razias muçulmanas nas Astúrias. Outros autores, como Abilio Barbero e Marcelo Vigil, consideram que, mais do que um despovoamento, o que ocorreu foi uma desorganização política e económica do território que, longe de ter começado no século VIII, trazia raízes já da crise latifundiária tardo-romano e do sistema esclavagista. Além disso, etnólogos como Julio Caro Baroja chamam a atenção sobre o facto de existirem grandes diferenças entre as culturas cantábricas (galega, asturiana) e as da Meseta (como a castelhana).

A zona ocidental da sub-Meseta Norte, a que corresponde aos vales do Elsa, Órbigo e Sil, esteve em tempos pré-romanos povoada por tribos de língua céltica, como os astures ou os vacceos. Com a conquista romana, estes territórios foram incorporados no Conventus Asturiensis que, após a divisão provincial de Caracala, foi anexado à província da Galécia. No período visigodo, a área passou a formar parte do Ducado das Astúrias (ou Ducado Asturiense), cujas principais cidades eram Astorga (Asturica Augusta, capital dos Astures cismontanos) e Leão (Legio VIII, fundada pelos romanos na sequência das Guerras Cantábricas).

Desde a segunda metade do século VIII, estas regiões passaram a ser progressivamente absorvidas pelo Reino das Astúrias. No entanto, este processo realizou-se de diferentes maneiras, dependendo do território. Assim, por um lado, parece que as regiões da montanha leonesa, Bierzo e Maragatería nunca chegaram a despovoar-se de todo, conservando toda a sua personalidade étnica: deste modo, é muito provável que os territórios de Valdeón, Laciana e Babia tenham pertencido à monarquia asturiana desde os tempos de Pelágio. Mesmo assim, constata-se a existência de um condado de Bierzo desde os tempos do rei Afonso II, e é muito provável que seja bastante anterior ao seu reinado. Por outro lado, os estudos etnográficos realizados sobre o povo maragato revelam uma possível origem asturiana, expressada de maneira poética pelo folclorista asturiano Constantino Cabal[12]. Em todas estas comarcas foram preservadas modalidades linguísticas asturoleonesas e rasgos culturais muito próximos aos asturianos. Em oposição, a colonização do Paúl leonês, Coyanza e Tierra de Campos, teve uma forte componente moçárabe: por todas estas comarcas abundam formas toponímicas correspondentes a tal língua, nas que predominam os sufixos "-el" e "-iel", ao invés do asturoleonês "-iellu". Ainda hoje é possível discernir o contraste cultural entre estas duas áreas da província de Leão.

De qualquer forma, certo é que a cidade de Leão (León) se converteu no principal bastião asturiano da Meseta Central, chegando, após a morte do rei Afonso III, a assumir a capitalidade do Reino, que passou a denominar-se Reino de Leão. Outro marco no avanço asturiano em direcção ao Sul foi a fortificação e repovoamento de Zamora, verdadeira guardiã do rio Douro e que, pela sua importância, chegou a ser classificada por alguns historiadores árabes como a capital dos Galegos[13]. A expansão leonesa articular-se-ia durante os séculos seguintes em torno da antiga calçada romana que unia Asturica com Emerita Augusta, que daria lugar mais tarde à Via da Prata.

editar As marcas ocidentais: Galiza e o Condado Portucalense

Ver artigo principal: Condado Portucalense

O vínculo entre o Norte da Galiza e as Astúrias constata-se já no Paroquial Suévico, documento do século VI onde se fala da sede episcopal de Britonia, que se estendia pelos territórios da província de Lugo e Astúrias.

No decorrer da conquista muçulmana da Hispânia, os muçulmanos conquistaram Tui, e aí estabeleceram um senhorio com base no baixo vale do Rio Minho. A rebelião berbere dos anos 740 e 741 traria, como consequência, o abandono por parte das guarnições berberes de todas as suas posições ao norte da Serra de Gredos. Deste modo, o Sul da Galiza tornava-se livre do domínio muçulmano, embora sofrendo um processo de despovoamento semelhante ao do Vale do Douro que levou ao abandono de todo o tipo de vida urbana.

Por outro lado, o Norte da Galiza foi incorporado ao florescente reino asturiano pelo rei Afonso I, que instalou o bispo Odoário na cidade de Lugo. A débil posição asturiana foi entretanto consolidada pelo seu sucessor, Fruela I, que dominou uma insurreição dos galegos e derrotou em Pontuvia uma expedição de castigo enviada pelo emir de Córdoba Abderramão I. Décadas depois, outra insurreição dos galegos foi derrotada pelo rei Silo na batalha de Montecubeiro, próximo a Castroverde.

De qualquer forma, a descoberta do sepulcro do apóstolo Santiago, durante o reinado de Afonso II, e o subsequente surgimento dos Caminhos que herdaram o seu nome, asseguraram a integração espiritual da Galiza no Reino das Astúrias e posteriormente nos de Leão e Castela.

A expansão em direcção ao Sul foi iniciada por Ordonho I, que repovoou Rui. Em décadas posteriores, Vímara Peres, vassalo de Afonso III, chegou até Porto (tomado em 868), assentando as bases do Condado Portucalense, que mais tarde daria lugar ao Reino de Portugal.

editar A fronteira oriental: Ducado da Cantábria, Castela e o alto vale do Ebro

Ver artigos principais: Ducado da Cantábria, Castela.

Nos finais do século VIII, as zonas mais orientais da Sub-Meseta Norte estavam povoadas por pequenas comunidades rurais de diversas origens étnicas. O povo indígena era descendente das diferentes tribos que habitavam na região nos tempos pré-romanos, como os Várdulos, Váceos, os Turmogos e os Celtíberos, e dedicava-se fundamentalmente ao pastoreio. A estes povos juntou-se uma onda migratória procedente da área cantábro-pirenaica, integrada sobretudo por clãs pertencentes a dois povos diferentes: os Cantabros e os Vascones.

A expansão que decorreu mais cedo terá sido a dos Cantabros. A Cantábria descrita pelos geógrafos romanos estendia-se quase exclusivamente pelos territórios da Cordilheira, embora já a partir do século II, provavelmente fruto da sedentarização deste povo, começa a sua expansão para as terras da Meseta, testemunhada arqueologicamente pela infinidade de lápides vadinienses que registam um movimento migratório intenso dos habitantes da zona dos Picos de Europa em direcção à zona de Cisterna (Leão). Contudo, a colonização mais intensa foi levada a cabo no vale médio-alto do rio Ebro, nas actuais províncias de Burgos e La Rioja.

Deste modo, da leitura da obra de Crónica do Biclarense[14] (século VI), onde se descrevem as campanhas do rei visigodo em terras cantábricas, deduz-se que a Cantábria visigoda não coincidia com a descrita pelos geógrafos romanos, mas que se estendia por terras de La Rioja e Riberra Navarra. É descrita como uma região anexa ao território dos Vascones, e cuja capital era uma urbe baptizada com o mesmo nome, a Cidade da Cantábria, a um quilómetro a norte da actual cidade de Logroño e cujas ruínas ainda hoje são visíveis. A dita cidade recebeu admoestações de São Millán, que exortou os seus habitantes à conversão, sob ameaça de serem destruídos pelas forças do Mal. Advertência esta que terá sido ignorada pelos locais, que no ano seguinte veriam os seus lugares destruídos pelas tropas do rei ariano Leovigildo[15]. Mais tarde, este lugar tornou-se sede do Ducado da Cantábria, criado por Ervígio nos finais do século VI, com o objectivo de pacificar os Cantabros e conter a expansão basca. Conhece-se o nome de um dos seus duques, Pedro, que foi pai do rei asturiano Afonso I e também algumas das suas instituições — a Vida de São Millán, escrita por São Bráulio, cita a existência de um Senado da Cantábria que teria sede na cidade homónima.

Todavia, no século XI, o bispo de Astorga Sampiro chama Sancho III, o Maior de Navarra Rex Cantabriensis e, já no reinado de Garcia IV, um nobre navarro, Fortún Ochoiz, recebe o título de Senhor de Cameros, Senhor da Val de Arnero e Senhor da Cantábria.

A expansão basca teve lugar nos princípios da Reconquista. A toponímia demonstra que a língua euskara foi falada em boa parte de La Rioja e de Burgos e em Glosas Emilianenses conservam-se algumas frases em basco que foram anotadas provavelmente por monges falantes nativos desta língua. Assim, a língua castelhana herdou da basca o seu sistema fonológico e boa parte da sua antroponímia (Garcia, Sancho, Jimeno) e inclusivamente no poema do Mio Cid e nas obras de Gonzalo de Berceo[16] algumas das suas personagens empregam expressões bascas.

De qualquer forma, a zona começou a ser alcançada pelos reis das Astúrias a partir de Ordonho I e Afonso III que, com a ajuda dos seus vassalos Rodrigo e Diego Rodríguez Porcelos repovoaram a Peña de Amaya e fundaram a cidade de Burgos.

Plano arqueológico de Peña Amaya. O povoado e o castelo são de origem medieval, e neles passou provavelmente muitas temporadas Rodrigo de Castela, o primeiro conde de Castela.

Os primeiros avanços significativos a partir da Cordilheira Cantábrica em direcção à Meseta foram protagonizados pelos Foramontanos, nome com o qual se designam os colonos que abandonavam os territórios montanhosos do Norte e se dirigiam em direcção ao Sul: umas vezes a colonização dava-se por iniciativa da pequena nobreza e mosteiros e, noutras ocasiões, deviam-se a migrações de amplos grupos de parentesco, num movimento não muito diferente ao que os Vadinienses realizaram nos primeiros séculos da nossa era. Durante o reinado de Afonso II, foram ocupadas a região de Campoo, o território das fontes do Ebro, bem como as zonas mais setentrionais da bacia do Douro. Este era um território difícil de colonizar, dado que o flanco oriental do reino era distintamente mais desprotegido: as razias em direcção à Galiza e Leão teriam que atravessar o Deserto do Douro, um lugar pouco propício para o aprovisionamento das tropas, e, por isso, as suas bases situavam-se em Toledo, Coria Talamanca e Coimbra, povoações que distavam de mais de 400 quilómetros dos seus objectivos. Contudo, a zona de La Rioja, relativamente povoada, encontrava-se no poder de uma poderosa família de senhores locais, os Banu Qasi, e era atravessada por uma estrada romana que passava por Amaya e chegava até Astorga. Esta mesma estrada já teria sido utilizada por Leovigildo durante as suas campanhas contra os Cantabros no ano 574 e por Muza, durante a sua extensa operação de conquista levada a cabo nos anos 712-714.

O rei Ramiro I realizou uma tentativa de colonização e fortificação da cidade de Leão, embora frustrada por uma razia muçulmana. No entanto, o seu sucessor, Ordonho, aproveitou o crescente poderio militar asturiano, bem como os problemas internos do Emirado, para estabelecer e fortificar praças estratégicas na bacia do Douro. Rodrigo, primeiro Conde de Castela (instituído por Ordonho I) repovoou Peña de Amaya, assegurando a presença asturiana na margem direita do rio Ebro.

O seu sucessor, Diego Rodríguez Porcelos, procedeu, já em tempos de Afonso III, a uma política ainda mais expansiva: fixa a fronteira oriental do condado no rio Arlanzón e Montes de Oca[17]. Funda Burgos e arrebata os muçulmanos de algumas fortalezas fronteiriças, como Pancorbo, que serviam de base para as razias com que os emires de Córdoba assolavam estas comarcas. Para proteger a fronteira oriental do Reino das Astúrias, tiveram que construir-se uma panóplia de castelos, daí advindo o nome da região: Castela[18].

Nas décadas seguintes à morte de Diego Porcelos, outros nobres como Vela Jiménez, conde de Álava, ou Nuño Núñez, conde de Castela, prosseguiram no avanço asturiano em direcção ao Sul, alcançando o vale do Douro nos princípios do século X. Procedeu-se à ocupação da cidade de Osma e à penetração na região de Sepúlveda. Todas estas terras, pertencentes ao vale alto do rio Douro, estiveram habitadas pelos Celtíberos e pelos Arévacos, e nelas se enclavavam povoações de renome, como Numantia (destruída pelas tropas de Cipião), e Uxama (Osma), que, segundo todos os indícios, permaneceu povoada ainda depois da conquista islâmica. A carta de Beato a Etério, bispo de Osma, demonstra que, nos finais do século VIII, esta cidade conservava inclusivamente a sua sede episcopal. O filólogo espanhol Rafael Lapesa expõe na sua obra «As línguas circumvizinhas do castelhano» a sua tese de que o castelhano falado em Soria, bem como o da zona de Montes de Oca, teria um substrato moçárabe, o que parecia dar argumentos aos que afirmam que houve continuidade demográfica e cultural em determinadas zonas da bacia do Douro.

editar Os territórios dos Vascones

Ver artigo principal: Senhorio de Biscaia

Nos princípios da era cristã, os territórios da depressão basca estavam povoados fundamentalmente por três povos distintos: os Várdulos, os Caristios e os Autrígones. Alguns autores, como o linguista Koldo Mitxelena, consideram que estes povos falariam uma língua antepassada do basco actual.

Por outro lado, outros historiadores e filólogos, como Claudio Sánchez Albornoz ou Jürgen Untermann, consideram que a depressão basca (os antigos saltus e ager vasconum) foi colonizada tardiamente nos séculos V e VI pelas gentes procedentes da Aquitânia. Neste sentido, destaca-se o facto de que tanto o ager como o saltus vasconum estavam profundamente romanizados, e que se preservou até aos dias de hoje toponímia indoeuropeia não basca (Deva, Durango), nas actuais províncias bascas. A já citada expansão do euskera medieval, bem como a inexistência de epigrafia protobasca fora do território aquitano, pareceriam ser argumentos de peso nesse sentido (como dado curioso, no único sítio onde se cunhavam moedas na Navarra, em Barscunes, observa-se que a moeda fora cunhada em língua ibérica). Se certo é que no sítio arqueológico de Iruña-Veleia se encontraram inscrições em língua basca, observa-se porém que estas são relativamente tardias, dos séculos III a V e, segundo alguns autores, não invalidariam a tese da basconização tardia da depressão basca, mas apenas a adiantariam por dois ou três séculos.

Vista de Cellorigo, onde se encontrava a fortaleza inexpugnável do conde de Álava, Vela Jiménez.

De qualquer forma, verifica-se que a língua basca nunca se estendeu para lá do rio Nervión, na época da Monarquia Asturiana. Nesses tempos, os Vascones dos territórios mais ocidentais ficaram na órbita asturiana durante os reinados dos reis Afonso I e Fruela. O segundo casou com uma alavessa, Munia, que lhe daria um filho, o futuro rei Afonso II. Durante o reinado de Mauregato, o jovem príncipe Afonso foi forçado a refugiar-se, com os seus parentes maternos, na zona de Álava, até que por fim, após a morte de Bermudo I, pôde ascender definitivamente ao trono asturiano. A constituição do Condado de Álava remonta à rebelião do conde Eglyón contra o rei Afonso III. Depois de sufocar a rebelião, o monarca nomeou um nobre leal à sua causa, Vela Jiménez, como Conde de Álava. Este empreendedor revelou-se de importância fundamental para a repovoação e fortificação de Castela, especialmente na defesa de Cellorigo, no ano 882, contra as tropas de Almundir de Córdoba. O Condado de Álava estendia-se por todos os territórios da província homónima[19], com excepção da Tierra de Ayala, que só seria integrada no território no século XV, e muito provavelmente do vale de Aramayona. Por outro lado, incluía os territórios fronteiriços das actuais províncias de Burgos e La Rioja. Este condado subsistiu como entidade independente até à morte de Álvaro Herrameliz, após a qual Álava passou a formar parte dos domínios de Fernán González.

O cronista biscaio Lope García de Salazar situa-nos, nas suas obras "Crónicas de Vizcaya" (do ano 1454) e "Bienandanzas e fortunas" (1471), o nascimento do senhorio de Biscaia nesta época. Aí se menciona a existência de um herói fundador, Jaun Zuría, de tez branca e cabelos ruivos, que criou o senhorio na sequência da sua vitória sobre as tropas asturianas na lendária batalha de Arrigorriaga (ano 840). No entanto, a falta de documentação a este respeito deixa todas as questões em terreno especulativo: aquilo que constatam as crónicas contemporâneas é apenas que Afonso III foi bem sucedido frente a uma rebelião de Vascones.

editar Cultura e sociedade

O reino tinha uma economia de subsistência puramente agrícola e pecuária, eminentemente rural, com Oviedo como único núcleo urbano na actual Astúrias. No entanto, havia uma série de cidades importantes nas outras partes do reino, como Braga, Lugo, Astorga, Leão, e Zamora. A sociedade, num primeiro momento do tipo igualitário, foi-se feudalizando progressivamente, sobretudo com a chegada de gentes moçárabes de cultura visigoda. Paradoxalmente, este povo foi cristianizando o reino, que inicialmente assentava numa zona de diversos elementos pagãos (a igreja de Santa Cruz, em Cangas de Onís, primeiro vestígio arquitectónico, está construída sobre um dólmen).

Embora se considere tradicionalmente que a actividade cultural tenha sido muito escassa, os trabalhos de Beato, o acróstico dedicado a Silo, as construções pré-românicas, etc., impelem a que este ponto de vista se esteja alterando.

A organização territorial estava ligada a comtes, que estavam ao mando das partes mais afastadas, estando o núcleo inicial astur sob mandato directo do rei. A estrutura da corte, o ofício palatino, era muito mais simples que o dos Visigodos.

editar Arte asturiana

Ver artigo principal: Arte das Astúrias

O pré-românico asturiano é uma arte englobada dentro do pré-românico e que se localiza na Península Ibérica adjacente ao Mar Cantábrico, livre da ocupação muçulmana no final do século VIII (depois da derrota de Guadalete e posterior invasão sarracena e até começos do século X, em que é absorvida pela arte românica vinda de França.

Imagem de San Salvador de Valdediós. A natureza frondosa e a distância do mundo dos homens faziam dos vales asturianos um lugar ideal para o recolhimento, a oração, e o encontro com o divino. A proliferação de topónimos como Valdediós ou Ribera Sacra faz referência àqueles tempos em que comarcas inteiras foram colonizadas por mosteiros.

Os monumentos de arte pré-românica nas Astúrias são expoentes da pequena civilização que se ia forjando na região cantábrica. Neste sentido, a arte asturiana é, junto com a catalã, uma das principais referências do pré-românico na Espanha; se bem que, nesta última, as influências lombardas são evidentes, na arte pré-românica asturiana faz-se sentir, sobretudo, a influência carolíngia.

No entanto, apesar de que, tradicionalmente, se fossem acentuando os vínculos entre o estilo asturiano e o visigótico, alguns autores não deixam de salientar o facto de que provavelmente boa parte das suas características derivem da arte romana e paleocristã dos quais existem alguns expoentes em território asturiano. Também há certas influências autóctones, puramente astures e, neste sentido, nalguns monumentos pré-românicos, como San Miguel de Lillo, podem observar-se medalhões onde surgem gravados motivos pagãos como a hexapétala ou a espiral solar, que ainda hoje se empregam para decorar os espigueiros asturianos.

editar Religiosidade e espiritualidade no Reino das Astúrias

editar Restos do paganismo celta e megalítico

Ver artigos principais: Paraísos celtas, mitologia asturiana.
A Xana[20] galante e formosa
coroada de pérolas de orvalho,
vestida de galas de Maio
e calçada de pétalas de rosa

(trad.) Nel e Flor, Pin de Pría[21]
Cheguei à tua há terra dois mil anos
pois antes passeava-me por cima das estrelas
e ao encontrar-me numa ilha de estranhos
alguém se decidiu a seguir-me as pegadas.

(trad.) El Cuintu la Xana, Francisco González Prieto[21]

Embora os primeiros testemunhos cristãos nas Astúrias datem do século V[22], a verdadeira progressão do cristianismo na região apenas teve lugar a partir de meados do século VI, quando toda uma série de monges, como Toríbio de Liébana e outros monges pertencentes à Ordem de São Frutuoso de Braga, se foram assentando em territórios da cordilheira cantábrica, iniciando a predicação da doutrina cristã entre os locais.

A cristianização das Astúrias avançou de maneira muito lenta, podendo-se mesmo afirmar que jamais se impôs sobre as antigas divindades. Tal como sucedeu em muitos outros lugares (embora aí, talvez, em maior medida), estas perduraram nas crenças populares, coexistindo sincreticamente com a nova religião. É neste contexto que São Martinho de Braga repreendia, na sua obra De correctione rusticorum, os camponeses da Galécia pelo seu apego aos cultos pagãos:

O Rio Deva, que no seu auge esteve consagrado à deusa pagã homónima.
«Muitos demónios dos [NT: que foram] expulsos do céu presidem no mar, nos rios, nas fontes ou nas selvas e se fazem adorar pelos ignorantes como deuses. A eles fazem sacrifícios: no mar invocam Neptuno; nos rios, as Lâmias; nas fontes, as Ninfas; nas selvas, as Dianas.[23]».

O folclorista asturiano Constantino Cabal foi quem defendeu pela primeira vez a existência de parentesco etimológico - hoje já geralmente aceite pelos filólogos[24][25] - entre o vocábulo latino diana, que surge nos textos de São Martinho de Braga, e o asturiano xana, que designa a conhecida criatura da mitologia asturiana, o que poderia indicar a existência de alguma continuidade entre a antiga religião asturiana e as crenças míticas presentes na actualidade nas zonas rurais das Astúrias. Não será por acaso que a ribeira que brota do santuário de Covadonga ainda hoje é conhecida pelo nome da antiga deusa celta Deva, a cujo culto estava consagrado o lugar antes da sua cristianização. Segundo outros autores[26], deva é uma palavra celta e indoeuropeia que significa simplesmente deusa, pelo que seria possível que as referências a este nome incluíssem outras e distintas divindades femininas como Navia ou Briga. De qualquer forma, Deva era uma evocação que, segundo a opinião de historiadores de renome[27][28], etnólogos[29] e filólogos[30][31], gozava de grande estatuto na época pré-cristã, tal como o testemunham topónimos como La Isla de Deva (em Castrillón) ou o poço de Güeyu la Deva (Gijón). Diz-se ainda hoje que, da primeira, vêm as raparigas que nascem no território do concelho citado. De Güeyu la Deva, que o vermelho das suas águas se deve ao sangue dos mouros derrotados na batalha de Covadonga.

No vale médio do rio Sella, na zona onde se encontra Cangas de Onís, existia uma área dolménica datada da época megalítica, provavelmente do período 4000-2000 a.C.. Aí, particularmente no dólmen de Santa Cruz, se realizavam os rituais funerários dos chefes tribais da comarca. Esta prática resistiu às conquistas romana e visigótica, e estava de tal forma enraizada que, ainda no século VIII, o rei Fávila aí terá sido enterrado, no mesmo local onde repousavam os restos de caudilhos ancestrais. Ainda que a cristianização da região tenha sido patrocinada pela monarquia asturiana (através da edificação de uma igreja), certo é que ainda hoje existem lendas pagãs que afirmam que o dólmen de Santa Cruz é habitado por xanas e que a terra que se extrai do seu solo tem propriedades curativas.

O Taxus representa o vínculo dos asturianos pagãos com a Terra, os antepassados e a religião antiga.

Segundo a lápide encontrada no túmulo de Fávila, o funeral do rei foi oficiado por Asterio, qualificado de vate, palavra latina que significa "adivinho, profeta", com cognatos nas línguas célticas, como o gaélico irlandês oaith, que designava os bardos que realizavam profecias e adivinhações (por exemplo, o mago Suibhne, equivalente irlandês de Merlin). Esta terminologia contrasta com a que encontramos nos textos cristãos mais comuns, onde é hábito encontrar referências a sacerdotes como presbyterus (do grego Πρεσβυτερος, "irmão maior"). Neste contexto, não será demais recordar que a cristianização das Astúrias não foi necessariamente levada a cabo por vias ortodoxas: o Paroquial Suévico atribuía a sede dos Bretões às paróquias existentes no território asturiano, pelo que é provável que as primitivas formas de cristianismo típico nas Astúrias não divergissem muito das existentes nas igrejas celtas das ilhas britânicas, entre elas a tonsura dos seus monges que, pelas suas reminiscências pagãs, foi condenada pelo IV Concílio de Toledo[32]. Hoje em dia, ainda restam na Galiza numerosas lendas relativas a religiosos que viajaram por mar em direcção às costas do Paraíso, como por exemplo São Amaro, Trezenzonio ou Ero de Armenteira: lendas que estabelecem grande paralelismo com as histórias de São Brandão, o Navegante, São Maclóvio de Gales ou os